Entrevista

 
 

 

Dra. Mirian Ribeiro Leite

Presidente CRF-RJ - 2003

 
     
  "Insisto dizer que cabe ao farmacêutico proteger a sociedade. Isto só é possível se há conduta ética, o lucro é uma conseqüência."  
     


Qual a sua visão sobre o papel do farmacêutico numa economia globalizada?

 

O cenário atual aponta para o desestímulo à inteligência nacional, no que tange os setores da indústria. O papel do farmacêutico, nesse mundo complexo, é lutar garantindo seus valores e seus ideais preservando a unidade, o que o leva a descobrir novos caminhos.

Qual é a sua avaliação sobre a automedicação no Brasil?

 

Uma prática muito comum adotada por grande maioria da população. As causas são inúmeras, como: impossibilidade de acesso ao atendimento médico ou odontológico, por questões financeiras ou por próprio hábito de tentar solucionar os problemas de saúde do dia a dia levando em conta a recomendação de alguém mais próximo. Além disso, a freqüência de propagandas indiscriminadas através da mídia eletrônica, da indústria e do comércio são fatores determinantes à automedicação.
O Sistema de Informações Toxicológicas (Sinitox/Fiocruz) mostra que há alguns anos os medicamentos são a primeira causa de intoxicação humana no Brasil, principalmente em crianças.

No ambiente hospitalar, como a Sra. Vê a questão da integração médico-enfermeiro-farmacêutico?

 

Vejo como fundamental à integralidade das ações de saúde, tanto no setor público como privado.

Durante sua gestão, quais foram as principais conquistas da categoria?

 

Participação na elaboração, avaliação, implantação de políticas de saúde.
-representante no Conselho Estadual de Saúde-RJ
-delegado nas Conferências Estaduais - RJ de Assistência Farmacêutica e Medicamentos
-delegado na Conferência Nacional de Saúde

Participação de representantes das Câmaras Técnicas do CRF-RJ na elaboração de normas sanitárias pelos órgãos regulamentadores governamentais:
-Em Grupo de Trabalho da SES-RJ para elaboração de regulamento técnico para o desenvolvimento de atividades relacionadas à quimioterapia antineoplásica;
-Em Grupo de Trabalho da SES-RJ para elaboração de proposta de regulamentação da Lei Estadual (RJ) nº 3938/2002
-Audiência pública: enviando proposta à ANVISA, quando da Consulta pública nº 11/2003 (regras gerais para rotulagem de medicamentos); enviando proposta à ANVISA quando da Consulta Pública n º 24/2003 (recolhimento de medicamentos), culminando para participar da definição do texto da resolução sobre o assunto, único representante do Estado do Rio de Janeiro.
-Farmacovigilância

Oferta de eventos para educação continuada, atualização e debate de temas atuais:
-3º Congresso Riopharma, com tema central "Atenção Farmacêutica"
-palestras dirigidas aos segmentos: Farmácia Comunitária, Indústria Farmacêutica, Terapia Nutricional.

Facilitado o acesso aos procedimentos e formulários necessários para requerimentos ao CRF-RJ, através de sua divulgação na homepage.

Como o farmacêutico de uma indústria ou farmácia comercial, um profissional que defende o uso racional dos medicamentos, embora viva dele, pode lidar com o fato das pessoas, nos dias atuais, quererem obter cada vez mais beleza e saúde, através do uso indiscriminado de substâncias (medicamentos)?

 

O uso indiscriminado de qualquer tipo de medicamento sempre foi uma das grandes preocupações e responsabilidade dos farmacêuticos.
Lidar com essa questão é um aprendizado praticado durante sua vida acadêmica e exercido durante toda sua vida profissional.
Cabe ao farmacêutico contribuir com os aspectos regulatórios da questão, orientar os empresários do segmento, proteger a sociedade, além de fiscalizar a produção, propaganda e venda de tais produtos.

Nos últimos 20 anos, tivemos profundas mudanças no plano geopolítico e econômico mundial. A sra. Acha que o campo de atuação do farmacêutico foi atingido por tais mudanças? Como?

 

Eu diria que está acorrendo uma valorização no campo humanista com a redescoberta dos reais valores da profissão que se traduz na vocação de oferecer uma atenção farmacêutica qualificada atendendo aos anseios de uma sociedade mais exigente sobre seus direitos no campo social e econômico. O campo de atuação do farmacêutico está sendo ampliado na medida que há mudanças econômicas, políticas tecnológicas e culturais.

Como avalia o ensino farmacêutico no Brasil em relação às demandas do mercado?

 

Vejo que é preciso exigir mais, tendo em vista mudanças em algumas áreas cruciais de conhecimento decorrentes da globalização. Portanto, está mais exigente em alguns setores.

 

Sabemos que a competição que se desenvolve no mercado de farmácias e drogarias é feroz. Como a Sra. Acha que um farmacêutico, proprietário de farmácia ou drogaria, deve se portar frente ao binômio ética/competição?

 

Como sobreviver eticamente neste mercado? Insisto dizer que cabe ao farmacêutico proteger a sociedade. Isto só é possível se há conduta ética, o lucro é uma conseqüência.

 

Farmacêuticos 24 hs. na farmácia. Qual sua opinião a respeito dessa exigência. Você acha que esta determinação esta valorizando os farmacêuticos?

 

A presença do técnico responsável sempre foi obrigatória durante todo horário de funcionamento do estabelecimento. Exigir a presença deste profissional é um direito do cidadão/usuário. Cabe ao farmacêutico a prática de atenção farmacêutica: a educação em saúde – promoção do uso racional de medicamento; orientação/atendimento farmacêutica; dispensação e outras atividades específicas que integram as ações de saúde.

 

Porque no segmento de distribuição não temos nenhuma Câmara Técnica criada?

 

A Câmara Técnica é criada a partir da manifestação do segmento interessado.

 

Quantas farmácias foram fechadas por irregularidade nos últimos anos?

 

Pois acho um absurdo à quantidade de farmácias que vendem remédios controlados sem ter a autorização para o mesmo. Uma sugestão: fiscalizem farmácias que não tem registro de medicamento controlado.O Conselho não tem poder de fechar estabelecimentos. Essa pergunta deve ser dirigida à Vigilância Sanitária.

 

 

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