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Dr. Guilherme Rapozeiro França
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Possui graduação em
Farmácia com especialização em Indústria pela Universidade
Federal Fluminense (2003), mestrado em Neuroimunologia pela
Universidade Federal Fluminense (2005) e Doutorado, em
andamento, em Biofísica pela UFRJ.
Tem experiência na
área de farmácia hospitalar, terapia nutricional e
quimioterapia.
Hoje é professor
Adjunto II de Farmacologia e Farmácia Clínica da Universidade
Severino Sombra está desenvolvendo projeto científico na área de
Neurociências no laboratório de Neuroquímica da UFF, com ênfase
em Desenvolvimento do Sistema Nervoso Central, Proliferação
Celular e Receptores Purinérgicos.
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A
apoptose é um tipo de morte celular programada que é controlada
por uma rede protéico-celular complexa e altamente
especializada. Durante a apoptose a célula passa por mudanças
morfológicas marcantes que incluem a condensação da cromatina,
fragmentação do DNA e da membrana nuclear, formação de corpos
apoptóticos e ausência de inflamação. Mantendo a integridade do
organismo como um todo.
A apoptose é um fenômeno que pode ocorrer tanto durante o
desenvolvimento embrionário quanto durante a vida adulta. No
sistema nervoso, por exemplo, sabe-se que a geração e eliminação
de neurônios faz parte do desenvolvimento normal. Em
vertebrados, este fenômeno vem sendo muito estudado observando
projeções axo-dendríticas e a conseqüente inervação da célula
alvo. Nestes estudos os neurônios competem com o alvo e aquele
que conseguir consolidar a sua sinapse primeiro sobreviverá, os
demais serão eliminados por apoptose. Este tipo de morte durante
o desenvolvimento é de vital importância para formação do
sistema nervoso central e periférico, proporcionando a forma
anatômica e controlando a população e atividade celular.
Durante o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso, uma
das formas de se controlar a sobrevivência neuronal é regular a
disponibilidade de neurotrofinas. As neurotrofinas são moléculas
protéicas da família do fator de crescimento de nervo (NGF).
Esta neurotrofina, o NGF, apresenta uma ação dual que depende do
subtipo de receptor no qual ele pode se ligar.
As ações tróficas do NGF, incluindo a inibição da morte celular
programada, dependem da ativação de receptores de alta afinidade
ao ligante, os receptores tirosina cinase inseridos na membrana
celular (Trk A). Porém, neurônios que expressam o receptor de
baixa afinidade ao NGF, os receptores p75NTR (um membro da
família de receptores do fator de necrose tumoral (TNF) e do
receptor faz), por exemplo, podem ser conduzidos a morte celular
por apoptose. Além disso, estudos recentes mostram que o NGF não
processado, o próNGF, liga-se preferencialmente ao receptor
p75NTR do que ao Trk A, e esta ligação seletiva leva a morte
celular por apoptose. Com a descoberta de que o próNGF pode
ativar o receptor p75NTR, novos estudos surgiram mostrando que a
capacidade de uma célula controlar os níveis de próNGF e NGF é
um fator crítico na manutenção entre a vida e a morte.
Além do seu papel durante o desenvolvimento, o receptor p75NTR
também é de vital importância na manutenção da vida adulta. A
expressão deste receptor pode ser induzida em neurônios que
estão morrendo por processos isquêmicos, agentes tóxicos,
neurônios axotomizados, entre outras formas de se induzir a
morte. Assim, os estudos indicam que a ativação do receptor
p75NTR poderia ser um dos primeiros passos que iniciam a
apoptose após estes fenômenos de lesão. Além disso, a molécula
ligante próNGF poderia estar envolvida no surgimento e no
processo de doenças neurodegenerativas. Segundo Fahnestock, M e
col. (2001) o próNGF é a forma predominante do NGF no cérebro
humano e está aumentada durante a doença de Alzheimer. Porém os
mecanismos que fazem com que o próNGF e o p75NTR induzam a
apoptose não estão completamente esclarecidos.
Entretanto, Nykjaer, A e col. (2004) mostraram, em seus estudos
realizados com células parentais 293 transfectadas, que as
neurotrofinas usam não somente dois, mais três classes de
receptores distintos para regular as respostas biológicas de
morte e sobrevivência. Eles mostraram que a sortilina é um
importante receptor para neurotrofina ligando-se na subunidade
pró do próNGF com alta afinidade. Junto com o p75NTR, a
sortilina facilita a formação do complexo de alta afinidade para
o próNGF se ligar. Então a sortilina serve como um co-receptor e
trocador molecular, capacitando neurônios que expressam os
receptores Trk A e p75NTR a responder para a neurotrofina e
iniciar processos de sobrevivência ou morte, dependendo do
complexo que os receptores vão formar na membrana.
A partir da ativação destes receptores de morte dá-se início
então a uma cascata proteolítica intracelular. Para isso a
célula possui uma família de proteases que contém em sua
estrutura molecular uma cisteína no seu sítio ativo, que é capaz
de clivar seus alvos protéicos em sítios contendo ácido
aspártico. Estas proteínas são chamadas de caspases. As caspases
são sintetizadas na célula como precursores inativos, ou
pró-caspases, que são geralmente ativadas pela clivagem em
regiões ácido aspártico por outras caspases. Uma vez ativadas,
as caspases clivam e ativam outras pró-caspases, resultando em
um efeito em cascata proteolítico amplificado e irreversível.
A ativação de pró-caspases pode ser originada no meio
extracelular ou no meio intracelular.
No meio extracelular, além da ativação dos receptores p75NTR , a
célula pode expor receptores de morte do tipo faz, por exemplo,
que podem recrutar proteínas adaptadoras intracelulares que
ligam e agregam moléculas de pró-caspase-8. A caspase-8 ativada
pode induzir a clivagem de outras pró-caspases culminando na
morte celular.
No meio intracelular, a morte celular pode ser controlada pela
mitocôndria. A mitocôndria é uma organela essencial para
manutenção da função e viabilidade celular. Ela participa tanto
na promoção de vida participando do metabolismo energético,
fornecendo ATP para as funções enzimáticas, quanto na promoção
de morte, durante a apoptose. No caso da apoptose, a via
mitocondrial é uma das mais importantes vias de morte celular,
sendo capaz de iniciar e/ou amplificar o sinal apoptótico. Este
processo de morte via mitocôndria tem como início a liberação do
citocromo c do espaço intermembranar mitocondrial, este
carreador de elétrons se liga e ativa uma proteína adaptadora
chamada de Apaf-1 levando a ativação de pró-caspases.
A liberação do citocromo c da mitocôndria pode ser regulada por
uma família de proteínas chamadas de Bcl-2. Alguns membros desta
família inibem a apoptose bloqueando a liberação do citocromo c
da mitocôndria. Outros membros da família Bcl-2 não são
inibidores de morte, mas promovem a ativação de pró-caspases.
Alguns desses promotores de apoptose, bem como a Bax e Bak,
estimulam a liberação do citocromo c da mitocôndria. Estas
evidências foram comprovadas através de experimentos que
inativaram os genes que decodificam a Bax e a Bak, tendo como
resultado células resistentes à maioria dos estímulos que
induzem a apoptose. A importância do conhecimento dos mecanismos
de morte celular poderia então trazer novas esperanças para o
tratamento de doenças neurodegenerativas como Parkinson,
Alzheimer, Esclerose Múltipla e Miastenia Grave, por exemplo.
Até o momento, a maioria das evidências apontava para uma ação
das caspases somente em fenômenos apoptóticos, porém pesquisas
recentes têm mostrado que estas proteínas podem estar envolvidas
em outros fenômenos, como por exemplo, na inibição da
proliferação de células T, inibição da produção de interleucina-2,
entre outras. Assim o entendimento da atividade destas proteínas
seria de vital importância para o tratamento de doenças
autoimunes e linfomas por exemplo.
Essa é uma pequena amostra de como uma falha mínima no programa
de morte que toda a célula carrega pode levar a uma doença e, às
vezes, à morte do indivíduo. Mas é suficiente para justificar
todo o esforço realizado para que cada participante, cada etapa
e cada arma do misterioso suicídio celular sejam revelados.
Qualquer descoberta é importante para a criação de novas
terapias e métodos de prevenção, que poderão evitar ou tratar
com sucesso inúmeras doenças hoje incuráveis.
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